
- Aquele que vem depois de mim, do qual não sou digno de desatar a correia da sandália(Jo,1, 27).
A figura de João, o Batista, é essencial para entendermos o que os evangelhos nos revelam sobre Quem foi Jesus Cristo. A cena do encontro dos dois personagens e a do batismo, são peças-chave para a compreensão da mensagem que os evangelistas querem transmitir. Todos eles parecem ter registado a mesma cena:vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de desatar a correia das sandálias(Lc, 3,16); depois de mim vem o mais forte do que eu, de quem não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das sandálias(Mc, 1,7); eu não sou digno nem ao menos de tirar-lhe as sandálias(Mt, 3,11). Primeira evidência: Jesus não era nenhum pé-descalço, calçava sandálias. Na sinagoga de Antioquia, pelos anos 50, quando nenhum dos evangelhos existia, Paulo dirigiu-se aos judeus lembrando a mesma frase do Batista: aí vem, depois de mim, aquele de quem não sou digno de desatar a sandália (At, 13,25). Quando os textos evangélicos foram redigidos, dezenas de anos após o acontecimento, corria na memória popular uma cena que seria das mais emotivas e partilhadas pelos crentes: desatar as correias das sandálias de Jesus.
O evangelho de Lucas dedica ao nascimento de João Batista tanto texto como ao de Jesus, desde o momento em que as duas mães se encontraram – uma já em idade avançada e outra muito jovem, ambas prodigiosamente grávidas -, até à cerimónia da circuncisão das crianças. Na idade adulta, João vivia no deserto e Lucas indica com precisão o ano do início da sua atuação: no ano décimo quinto do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia…(Lc,3,1), ou seja, entre 26 e 27 da nossa era, João teria 32 ou 33 anos e Jesus também. Pilatos chegou à Judeia em 26. Diz Mateus que o Batista começou por pregar no deserto da Judeia(Mt,3,1) e que até fariseus e saduceus, de seitas diferentes, vindos de Jerusalém, o abordaram com curiosidade; Marcos diz que ele atuava no rio Jordão, pregando um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados(Mc,1,4) a discípulos que vinham de toda a parte. O rio Jordão, antes de desaguar no Mar Morto, separa a Judeia da Pereia, numa zona desértica. Batizava nas proximidades de Betânia, diz o evangelista João, numa aldeia da margem esquerda do rio, perto da foz (Al-Maghtas). Vivia como um asceta, vestia-se com roupa grosseira confecionada com pelos de camelo, um cinturão de couro, alimentava-se de gafanhotos (ou de alfarroba) e de mel silvestre.
O Batista não procurou o auditório mais seleto das sinagogas, onde se concentravam todos os sábados os destinatários da sua pregação, nem o recinto do Templo de Jerusalém, onde se aglomeravam multidões no tempo das festas; pelo contrário, adotara um estilo de vida diferenciado e tornara-se conhecido quanto baste para que os interessados e curiosos o viessem procurar num local ermo e desconfortável, o deserto. A mensagem era clara e simples: estando próxima a vinda do Messias, era necessário preparar a sua chegada, arrepender-se dos seus pecados e adotar uma vida nova. Ele viria para salvar, redimir e fazer justiça: os justos seriam acolhidos no Reino de Deus, os pecadores rejeitados e queimados como madeira abatida ao machado, como palha ceifada. João apregoava o advento de uma nova era, a do Espírito Santo. Deus enviava, para junto do povo que Ele escolhera, o seu filho triunfante: Este é o meu filho amado(Mt,3, 17, Mc 1, 11,). A voz que veio do céu no momento do batismo de Jesus dizia: Tu és o meu filho…(Lc, 3,22). Algo de novo estava a acontecer, no relacionamento de Deus com o seu povo, algo de muito diferente da presença de Yahweh Elohim numa arca de madeira de acácia dourada, enfeitada com querubins: o Filho de Deusmanifestava-se. A Arca tinha sido roubada fazia mais de 500 anos e o Deus de Israel não morava mais, desde então, em sítio nenhum.
Na linguagem dos evangelistas dos sinóticos, a cena significava que Jesus era um personagem escolhido e enviado por Deus para restaurar, junto do povo, uma aliança salvadora, que nenhum deles explica em detalhe, nenhum deles parece enxergar. Precisava Jesus de ser batizado? Que pecados lhe seriam perdoados? Jesus já era ou passaria a ser, a partir daquele momento, iniciado na sua missão? Em suma: que significa o batismo de Jesus? O próprio Batista estava confuso. No texto do evangelista João, mais ousado que todos os demais, Jesus é diferente de todos os personagens que até então serviram de mensageiros de Deus: ele é o Eleito de Deus(Jo,1,34), o Verbo de Deuspelo qual o mundo foi criado (Jo,1,1-14), ele é divino, ele é Deus. Jesus nunca disse isso dele mesmo, nem os três outros evangelistas jamais o disseram. A divindade de Jesus é uma reflexão teológica exclusiva ao evangelho de João e é por essa afirmação que ele começa, no prólogo e na primeira narrativa, para que não restem dúvidas sobre o que vem a seguir. Segundo o evangelho de João, o batismo serviu para que se manifestasse a divindade de Jesus. A partir de então, será possível interpretar o que aconteceu antes e o que virá a acontecer depois, nas andanças do Rabi.
Nenhum dos evangelistas relaciona o local onde João batizava com o fato de ter sido nesse mesmo local ou muito próximo de lá que os israelitas atravessaram a seco o Jordão para penetrarem na Terra Prometida, sob o comando de Josué, pelo século XIII a.C. (Js,3, 14-17). Assim conta o livro de Josué, escrito uns seiscentos anos mais tarde: depois de 40 anos de errância e de atravessarem o Jordão, eles acamparam em Guilgal (Js,4, 19), onde todos os filhos de Israel foram circuncidados (Js,5,2), antes de começarem uma vida nova. Só depois disso se apoderaram de Jericó, a maior cidade de Canaã, que ficava a 10 kms do Jordão (Js,20,21). No meio do enredo sobressai a história da Arca da Aliança, que vai na frente, quando se cumpre a promessa de Deus de fazer entrar o seu povo na terra que lhe estava prometida desde Abraão. Nesse mesmo local, os profetas Elias e Eliseu atravessaram a pé seco o Jordão; na margem esquerda, Elias foi arrebatado por um carro e cavalos de fogo, deixando ao discípulo Eliseu o seu poder e a sua capa, graças à qual este atravessou a pé o Jordão, de regresso a Jericó (2Re,2). Elias e Eliseu foram profetas no tempo do rei Acab, sétimo rei de Israel (século IX a.C.), casado com uma famosa princesa fenícia, chamada Jezabel, poderosa e dominadora, que introduziu no reino o culto do deus Baal. Os primeiros profetas de Israel vieram lembrar ao povo a afronta feita a Yahweh, pregando o arrependimento. O local da atuação do Batista e do batismo de Jesus não é um sítio qualquer, antes um espaço cheio de significado, onde aconteceram coisas surpreendentes.
João Batista seria muito provavelmente um nazireu, iniciado no serviço de Deus, abstendo-se de comer carne nos dias prescritos e de beber bebidas alcoólicas, um excêntrico que deixou crescer o cabelo e não se aproximava dos cadáveres – para não se contaminar. O traje e o pregão dele eram messiânicos, ele estava próximo da ideologia dos essénios, uma seita religiosa que cresceu a partir do tempo dos Macabeus. Foram perseguidos e refugiaram-se em zonas isoladas, sobrevivendo até à queda de Jerusalém em 70 (mais conhecidos agora pelos manuscritos encontrados em Qumrân, onde vivia numa dessas comunidades). Os essénios viviam afastados das multidões, acreditavam na salvação de um grupo restrito de escolhidos, os eleitos de Deus; João talvez tenha crescido no meio de um desses grupos, mas apregoava a remissão dos pecados de todo o povo. Em comum, eles tinham a prática do ritual do batismo e a partilha dos bens. Quem tivesse duas túnicas partilhava uma com quem não tinha, o mesmo fariam com a comida; os publicanos exerceriam com honestidade a sua função de cobrar impostos, os soldados contentar-se-iam com o seu soldo (Lc, 3, 10-14). Jesus apregoará os mesmos princípios de moral. A missão profética de João Batista era a de um precursor do Messias; como todo profeta, ele recorreu ao deserto como espaço de recolhimento e de inspiração, para uma renovação espiritual. O deserto purifica o que a multidão contamina. Já o sábio Tirésias, das tragédias de Sófocles e dos poemas homéricos, se revitalizava no deserto. Depois de batizado, também Jesus se retirou para o deserto. João esperava que Jesus se juntasse a ele, para com ele e os demais que o procuravam, aguardar pelo tempo da justiça. Mas foram os discípulos de João que seguiram Jesus (Jo, 1,40-42) e o Batista não terá ficado convencido de que Jesus era o Filho de Deus, aquele Messias que reinaria com os justos ressuscitados, no final dos tempos, num tempo que não tardaria.
Já na prisão da fortaleza de Maqueronte, a uns 50 kms a Sudeste do local onde batizara, João envia mensageiros a Jesus a perguntar se é ele mesmoaquele que há de vir, ou se devem aguardar por outro. Apenas Mateus, o evangelista do Reino de Deus, narra esta cena: Jesus adverte os mensageiros para que digam a João o que viram e ouviram: cegos que vêm, coxos que andam, leprosos que ficam limpos, surdos que ouvem, mortos que ressuscitam, enfim a mensagem apocalíptica que chega a todos, até aos pobres (Mt,11,4-6). Jesus não fala de si, antes confirma que João é mais do que um profeta, ele é o mensageiro que prepara a vinda do Messias, mas não se apresenta como o Messias esperado. Lucas menciona o envio dos mensageiros do Batista, mas coloca a cena depois da ressurreição do filho da viúva de Naim (Lc, 7, 19-23), milagre feito na Galileia, uns 14 kms a Sul de Nazaré. Não diz que nesse momento João já estivesse encarcerado; não parece muito razoável que o Batista gozasse de tais regalias nas masmorras da fortaleza de Herodes. Para além das divergências, a mensagem das narrativas é clara: todos querem saber quem é Jesus e ao que vem.
Talvez que o perfil do Messias esperado pelos discípulos do Batista não fosse exatamente o de Jesus. Também o Messias esperado pelos fariseus e pelos saduceus não correspondia ao perfil de Jesus. Quando João foi preso, Jesus continuou a denunciar a vida devassa e os pecados da família real. Mas tal não bastava para satisfazer aqueles que tinham do Messias uma outra visão: eles esperavam por alguém que fizesse algo mais para além de denunciar os pecados de Herodes, alguém que assumisse a realeza, porque o Messias é um Ungido, como o eram os reis de Israel e de Judá. O Reino de Deus que Jesus vai anunciar não é o da realeza aguardada pelos seguidores do Batista e que, agora privados do seu líder, se aproximam do novo taumaturgo e milagreiro que exibe o seu poder através de sinais inequívocos, sem constrangimento algum. Jesus vem anunciar um outro reino, governado por Deus através do seu Messias. O encontro com o Batista marcou o início da empreitada doutrinária de Jesus, que começou com momentos de conflito e de confusão, implicando com os seguidores do Batista, com seus conterrâneos e com os seus familiares. Ele não era exatamente aquele que os outros queriam que ele fosse.
É importante a narrativa de Lucas contando como Jesus foi expulso da sinagoga da sua terra, Nazaré, por ter comentado uma passagem de Isaías onde se lê:O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor… Ele comentou: Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos essa passagem da Escritura(Lc, 4, 16-30). O ambiente ficou tenso quando Jesus assumiu publicamente a sua missão profética e se comparou a Elias e a Eliseu. Expulsaram-no da sinagoga e da aldeia, queriam até precipitá-lo do alto de uma colina. Os seus conterrâneos não queriam mais um curandeiro, nem um praticante de obras de misericórdia, como muitos outros que se exibiam naquele tempo por terras da Galileia: estavam dececionados com o filho da terra. Os familiares de Jesus também procuravam dissuadi-lo de tanto exorcismo e de tanta implicação com os excluídos e os sem-ninguém. Dececionados! E Jesus com eles, por isso foi embora. Paciência! Ninguém é profeta na sua terra – Jesus conhecia o provérbio (Lc, 4, 24). Refugiou-se então na cidade piscatória de Cafarnaum (menos de 50 kms de Nazaré), onde teve melhor acolhimento e pregava todos os sábados na sinagoga. Lucas diz que a sinagoga fora mandada construir por um centurião romano (Lc, 7,4), aquele que pediu a Jesus a cura de um criado seu. E ele o curou.
Flávio Josefo refere n’A Guerra dos Judeus, a pregação do Batista e o grande número de adeptos que tinha, sem o identificar com os essénios, comunidade que ele conhecia muito bem; segundo Josefo, Herodes Antipas (filho de Herodes o Grande, mencionado por Mateus no nascimento de Jesus) e os seus oficiais temiam que ele liderasse uma rebelião e apoiasse Aretas IV, o ex-sogro do tetrarca, que lhe tinha declarado guerra. Por isso, João Batista foi preso. É também a Josefo que devemos uma descrição da região, do seu habitat e da sua produtividade; ele era de Jerusalém, conhecia bem a Judeia e foi governador militar da Galileia, pelos anos de 66 e 67. Segundo ele, a região do Mar da Galileia era a mais fértil e produtiva de toda a Palestina, que beneficiava ainda daquele grande lago, que alimentava um próspero comércio de peixe. João pregava numa região desolada e agreste da Judeia e batizava na outra margem do Jordão, em terras da Pereia, a menos de 50 kms do palácio e fortaleza de Maqueronte, uma das residências de Herodes Antipas e a igual distância de Jerusalém; depois da prisão do Batista, Jesus afastou-se desse lugar e escolheu a terra mais rica, viçosa e movimentada da Palestina para exibir a sua mensagem e o seu poder: Cafarnaum e as margens do Mar da Galileia (Lago Tiberíades), 150 kms mais a Norte.
No evangelho de João, o personagem Batista define o roteiro da teologia joanina: o ritual do batismo da água, copiado de outras práticas judaicas, é um ritual profético, anunciador de algo diferente, que o evangelista descreve como um outro batismo, novo e redentor, o do Espírito Santo. Quando Jesus se aproxima, João profetisa: Depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim. Eu não o conhecia, mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim batizar com água(Jo, 1,29-31). O Batista fala em nome de outro personagem, do qual ele é apenas um mensageiro a cumprir uma missão: ele é profeta. Nessa função, cumpre-lhe revelar que sobre o Eleito de Deus ele viuo Espírito descer, como uma pomba, vindo do céu. Já não estamos a seguir uma narrativa, mas a entrar numa outra dimensão, mística e poética, no reino da utopia. Sem, no entanto, desenhar outra cosmografia que não seja a de um mundo que pode acabar a qualquer momento, pela insustentável estrutura do firmamento – um cosmos hebraico, o da narrativa do Génesis. Redigido em língua grega nos últimos anos do primeiro século da nossa era, quando as comunidades cristãs já se estendiam por muitos núcleos urbanos do Império, uns quarenta anos depois das cartas de Paulo e dos evangelhos sinóticos, o evangelho atribuído a João resulta da reflexão de uma escola de intelectuais helenizados, descomprometidos com os rituais do judaísmo tradicional, mas fortemente implicados na dimensão profética e apocalíptica da tradição que vem dos profetas Ezequiel e Daniel.
No dia seguinte ao do seu batismo (ou em outro qualquer dia seguinte), já a caminho da Galileia, Jesus encontrou o Batista e dois dos seus seguidores. O profeta saudou-o: – Eis o cordeiro de Deus(Jo,1,36). Os que acompanhavam o Batista seguiram Jesus e João ficou sozinho. Eram cerca de quatro horas da tarde. Nunca mais voltariam a encontrar-se. Depois de apregoar pela Galileia e regressar à Judeia, Jesus também aplicava o batismo de purificação – ele e os seus discípulos (Jo, 4, 2) – e angariava mais adeptos do que João. Eles disputavam-se sobre qual dos batismos seria o mais eficaz. Para melhorar o seu desempenho, o Batista mudou-se para outro lugar do Jordão, onde as águas eram mais abundantes do que em Betânia e terá dito de Jesus: O que vem depois de mim, passou adiante de mim, porque existia antes de mim(Jo, 1,15). O evangelista diz que nesse tempo, quando ambos batizavam e Jesus dava sinais inequívocos do seu poder, João Batista ainda não fora encarcerado (Jo,3,24). Isto passava-se em meados do ano 27 da nossa era. A prisão do percursor deve ter acontecido no final desse ano ou logo no início de 28. Foi decapitado em meados de 28.
Ele há coisas que só mesmo os poetas enxergam: Nós bebemos à glória do Bem Amado, um vinho que nos embriagou, desde muito antes do aparecimento da videira.(de um poeta ibérico do século X)