
Esperamos que 2021 traga coisas melhores do que 2020, que foi mau por vários acontecimentos, em que a Pandemia Covid-19, para além de uma crise sanitária grave, também provocou uma dura crise económica e social.
Mas, entre nós, no meu entendimento, as coisas também não correram de feição. Falo da dragagem da Ria, que ainda decorre. Os sinais e as notícias (estas recentes para nós) não auguram nada de bom.
Algum tempo após o início da dragagem, referida, verifiquei que a amplitude/nível das marés aumentava, inundando ainda mais as zonas marginais mais baixas. Apeteceu-me falar, escrever para alertar que se poderia estar a cometer mais um erro.
No entanto, por, de todo, desconhecer os resultados finais dos Estudos/Projetos de dragagem da Ria e do Estudo de Impacte Ambiental, e por respeito, prudência e não ter a minha vida organizada, de modo a dispor de algum tempo, para reunir a informação necessária para não correr o risco de ser agente de notícia/alarme infundado, distraidamente, acomodei-me. Efetivamente, embora com muita reserva, fui admitindo que seria apenas impressão minha, pois a Administração Pública não iria continuar a persistir nos erros do passado.
Muitos de nós se recordará que, no seguimento de intervenções anteriores que tiveram como objetivo primeiro a dragagem/fundeamento do Canal de Ligação/Navegação do Porto de Aveiro até à Barra, em 1998, teve lugar uma operação de dragagem da Ria.
Nessa altura e nos anos seguintes, nos vários “fóruns” e “palcos” em que tive oportunidade de intervir, perante as evidências que ia constatando “no terreno”, quer na zona a Nascente da Cambeia, quer na zona entre a Murtosa e a Ribeira de Pardelhas e daqui aos Ameirinhos, quer na zona de Romariz, quer na zona de Marinha de Cunha e de todas as demais nas proximidades destas, eram evidentes os sinais da invasão pelas águas salobras da Ria, quer nos campos aráveis marginais, salinizando-os, quer cobrindo, quase constantemente (na maré alta), os juncais de água, disse e escrevi que a dragagem, referida, tida sido má para a Ria e para os terrenos ribeirinhos.
Neste contexto, quando, de boa-fé e baseados nos conhecimentos que detinham, pessoas ligadas à Universidade de Aveiro se “deleitavam” com as “zonas de sapal”, potenciadoras de uma biodiversidade de uma riqueza a preservar, respondia que estávamos perante um “saber novo de uma Universidade nova”. Isto gerava desconforto, pois a “ciência” não queria admitir um conhecimento, fundamentado na observação direta e vivida de quem conheceu e conhece a Ria e os terrenos ribeirinhos, desde a década de sessenta do século passado, antes das intervenções “mais musculadas” de dragagem/afundamento do Canal de Navegação do Porto de Aveiro, que terão ocorrido em meados da década de setenta, igualmente do século passado.
Em reuniões no Porto de Aveiro, sempre que a questão da necessidade de afundamento do Canal de Navegação era abordado, para permitir o acesso a barcos de maior calado, intervinha para afirmar que, tudo o que se fizesse nesse sentido tinha que ter em conta os impactos que teria na Ria. Então, com o Eng. Cacho, ao tempo Presidente da Administração do Porto de Aveiro, envolvia-me em “diálogo acalorado”, pois ele dizia que eu estava contra o crescimento e desenvolvimento do Porto de Aveiro e eu declarava que o Porto era fundamental para a Região de Aveiro, mas que, qualquer “intervenção pesada” tinha que acautelar os eventuais impactos negativos na Ria. Do meu lado, o Provedor do Porto de Aveiro, Dr. António Rocha Andrade (de mais idade que nós), que “punha água na fervura” e sustentava que era preciso ter em conta todas as “situações” em análise. Politicamente, contava sempre o apoio claro do Sr. Casimiro Calafate, ao tempo Presidente da Junta de Freguesia de Cacia.
Para conciliar todos os interesses em jogo, defendia a construção de um dique/comporta, em local a definir pela “ciência hidráulica”, que seria, grosso modo, um bocado para o Norte de S. Jacinto. Este dique comporta regularia a entrada e a saída das águas, diminuindo, consequentemente, a amplitude das marés, a velocidade das correntes e, naturalmente, a inundação e erosão das margens.
Por ser contra a operação de uma dragagem, que não contemplasse o condicionalismo, referido, quando o Gabinete Projetista SENER foi encarregado pelo Programa Polis de elaborar o projeto de dragagem da Ria, pelo Conselho Intermunicipal da Região de Aveiro foi-me dada a possibilidade de estar presente nas reuniões mensais de acompanhamento da elaboração desse projeto. Fui uma presença incómoda, uma voz num “quase deserto” que parecia estar mais preocupado em apresentar um trabalho, do que prever e avaliar as suas consequências (espero rever as atas dessas reuniões, em que, a muito custo (e nem sempre) eram transcritas as posições que ia assumindo).
Em princípios de Novembro de 2011, fui à Holanda, onde tive a oportunidade de ver alguns diques e comportas, reguladores das águas, em algumas zonas com “roubo” de terreno ao Mar. Numa exposição, com maquetas exemplificadoras do modo de funcionamento dos diques/comportas e das dinâmicas associadas, pedi ao, ao tempo Vereador da Câmara de Aveiro, Dr. Pedro Ferreira, para servir de meu interlocutor junto de um Técnico/Eng. de uma Empresa Holandesa, especializada na construção de obras hidráulicas (não falo inglês).
Então, depois de lhe explicar a situação da Ria de Aveiro e da dinâmica das águas, que resultava das dragagens, fiz-lhe o convite para vir ao “próximo” Congresso da Região de Aveiro, para trazer conhecimento e informação acerca das eventuais soluções a implementar. Desde inícios de Outubro de 2011, eu já tinha como destino a Direção do Centro Distrital de Aveiro da Segurança Social (fui Presidente do Município da Murtosa até 29 de Dezembro (inclusive) de 2011), mas, mesmo assim, convenci o Presidente do Conselho Intermunicipal a fazer trazer o dito Técnico Holandês. Este veio. Pareceu-me quase ninguém estar interessado naquilo que disse. Intervi. Nessa altura, nesse Congresso, um então Presidente de Câmara (que já não é), que moderava o painel, disse-me que se queria fazer andar as coisas nesse sentido que não tivesse deixado a Câmara Municipal. No momento, fiquei incomodado, disse mesmo que iria escrever … a Eng.ª Lusitana Fonseca interessou-se, ficamos de falar. Mas, para além do trabalho, que não se compadece com o tempo necessário para tratar de outras coisas, quem não tem “palco” precisa de muito tempo para fazer passar as suas ideias/mensagens e … chegamos até aqui.
Com a notícia que, como uma “bomba”, em meados deste mês de Dezembro, li no Jornal “O Concelho de Estarreja” que, na primeira página, com um mapa a cores abrangendo o território da Murtosa desde a Ponte da Varela até ao Sul do Núcleo Urbano da Torreira e desde o Mar até ao limite Nascente do Concelho, dizia “CENÁRIOS ANTECIPAM INUNDAÇÕES MAIORES” e, na página três, do referido Jornal, “POENTE DO BUNHEIRO E TIJOSA SUBMERSOS”, é meu dever não ficar calado.
Não consegui aceder em boas condições à página web da Agência Portuguesa do Ambiente. Os compromissos assumidos não me permitiram resolver essa questão.
Pensei intervir, acerca deste assunto, na Assembleia Intermunicipal da Região de Aveiro, se se realizou ao final da tarde do dia 21 de Dezembro. Não consegui organizar-me para recolher mais alguma informação, conveniente para o efeito. Continuo sem o conseguir fazer.
No entanto, no final dessa reunião, falei com o Presidente do Conselho Intermunicipal, Eng. Ribau Esteves, também Presidente da Câmara de Aveiro. Transmiti-lhe a minha preocupação e a minha determinação em analisar toda a situação e ponderar ser o momento de voltar a pugnar pela resolução dos problemas da Ria (por também estar presente, aproveitei, para interpelar quem, no Congresso da Ria, mencionado, me disse que eu já não tinha legitimidade para continuar a querer atuar. Respondeu-me que o conteúdo das “Cartas de Zona Hidrográfica do Vouga, …” tinha estado em inquérito público até ao dia 11 de Novembro. Disse-lhe que não me apercebi – quem vive da política nem se apercebe de que o cidadão que trabalha não acede a essa informação).
Porque o espaço que tenho para escrever e a complexidade e delicadeza do tema não se compadecem com descrições alongadas, nem com a falta de informação que gera conhecimento (não sei se alguém deu contributos naquele inquérito público) permite que avance mais, fico por aqui. Voltarei ao assunto.
Um Bom ano de 2021, para todos (o que não irá ser possível, considerando o estado do País). Tenhamos esperança!
António Maria dos Santos Sousa