
- Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge para o Egito(Mt, 2,13).
O povo de Israel anda pelo Egito desde o tempo dos patriarcas: Abraão passou por lá, toda a família de Jacob emigrou para o Egito, foi de lá que um grande número de israelitas empreendeu uma longa caminhada até à terra de Canaã, com Moisés – narrada no livro do Êxodo. Sempre houve no Egito uma grande comunidade israelita; após a conquista e a destruição de Jerusalém pelo exército de Nabucodonosor, em 586 a.C., milhares de judeus migraram para o país onde reinava uma grande tolerância religiosa. Dessa leva de migrantes fazia parte o profeta Jeremias. Quando Alexandre da Macedónia fundou Alexandria, em 332 a.C., a comunidade judaica era tão importante que o conquistador concedeu aos judeus os mesmos direitos e privilégios dos macedónios.
O território conquistado por Alexandre estendia-se da Índia até ao Egito e desde então até à morte de Cleópatra, no ano 30 a.C., todo o Egito ficou sob domínio grego: durante três séculos. Pelos anos 250 a.C., o governante Ptolomeu II Filadelfo, um soberano culto e grande mecenas, criou em Alexandria um museu e uma famosa Biblioteca. A cidade transformou-se no maior centro cultural da antiguidade. O governante encomendou também a um grupo de sábios israelitas a transcrição das leis hebraicas que ele admirava (o Pentateuco) e a tradução dos livros da Bíblia hebraica para grego. Tal iniciativa só se entende pela importância da comunidade hebraica que se encontrava no delta do Nilo, a maior de toda a diáspora: lá tinham suas sinagogas e uma famosíssima escola bíblica. A tradução para grego dos textos hebraicos foi um trabalho muito longo, estendeu-se por mais de 150 anos e ficou conhecida como a Bíblia dos Setenta, porque teria sido feita por 72 homens sábios – no imaginário popular seriam 6 de cada tribo de Israel. Em Alexandria, pelos anos 50 a.C. foi redigido o Livro da Sabedoriae foi feita a compilação dos Salmosatribuídos a Salomão, livros que fazem parte do Antigo Testamento.
No tempo de Jesus, Alexandria era a maior cidade do Egito romano, rivalizava com Éfeso e com Antioquia (hoje na Turquia). Ultrapassava o meio milhão de habitantes. O seu porto acolhia navios de todo o Mediterrâneo, com as mercadorias mais exóticas e valiosas em proveniência de terras longínquas. Ficou famoso o seu farol, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Pelo caminho das caravanas, ao longo da costa, a distância entre Jerusalém e Alexandria era de cerca de 500 kms, duas semanas de caminhada. Gente com posses preferia embarcar no porto da nova cidade de Cesareia, mandada construir por Herodes o Grande pelos anos de 25-13 a.C. e desembarcar no monumental porto, a oeste do delta do Nilo, viagem de três a quatro dias. Quando a família de Jesus chegou ao Egito, encontrou um ambiente de paz e de grande progresso económico, uma grande atividade cultural e religiosa, o lugar ideal para o sucesso de um emigrante. O evangelista Mateus, ou outros que usaram o seu nome, tinham muitas razões para que o Egito servisse de terra de refúgio à família migrante, em sentido oposto às terras do Oriente, onde os magos lhe reservariam, sem dúvida, um caloroso acolhimento. Quando da redação em grego do Evangelho de Mateus, pouco antes do ano 70, já havia comunidades cristãs no Egito. Os Atos dos Apóstolosmencionam um cristão de Alexandria chamado Apolo, que pregava em Éfeso (At,18,24-28) pelos anos 50 e São Paulo fala dele na Primeira Epístola aos Coríntios(ICor 1,10-12).
A população judaica espalhada por todo o Egito, no tempo de Jesus, rondava o milhão de pessoas; em Alexandria, cidade de mais de meio milhão de habitantes, um terço da população era judaica e gozava de relevantes privilégios políticos e religiosos. As sinagogas rivalizavam entre elas em tamanho, beleza e prestígio. A língua corrente nas cidades era o grego, o idioma da elite culta do Império Romano, a língua do Novo Testamento. Somente o Evangelho de Mateus narra a fuga da família de Jesus para o Egito. Insinua que a família era de Belém, não diz onde moraram no Egito, apenas menciona para onde regressaram: para Nazaré, uma pequena aldeia agrícola da Galileia, a uns 150 kms a Norte de Jerusalém. Era uma região mais rica e verdejante do que as colinas áridas e agrestes de Belém. Teria poucas centenas de habitantes, e certamente que muitos nazarenos sonhavam com uma vida melhor em terras egípcias. Quando chegou o tempo de regressar a casa, diz o evangelista que o filho de Herodes, Arquelau, ainda estava vivo e governava a Judeia ao jeito violento de seu pai. Acabou sendo destituído no ano 6 da nossa era. Portanto, a família de Jesus terá regressado algum tempo antes da destituição de Arquelau, Jesus teria os seus dez a doze anos.
Lucas não menciona a fuga para o Egito e diz claramente que a família sempre viveu na Galileia. Ele narra um episódio curioso (Lc.2, 42): quando Jesus tinha doze anos, os seus pais perderam-no durante uma peregrinação a Jerusalém e foram encontrá-lo a discutir no Templo com os doutores da Lei. Os doutores interpretavam os textos hebraicos, tinham conhecimentos avançados em teologia, eram estudiosos e professores nas escolas rabínicas. Não existiriam escolas dessa qualidade em Nazaré, mas existiam no Egito. Não terá Jesus frequentado, a partir dos seus 7 anos, como era costume então, uma das escolas bíblicas da capital do Egito, Alexandria, antes do regresso à Galileia? E, durante os anos que viveram no Egito, a família de Jesus não teria crescido? Nenhum outro texto do Novo Testamento relata a passagem de Jesus pelo Egito.
Na sua terra e arredores Jesus era conhecido, segundo Mateus (13,55) como filho do carpinteiro; segundo Marcos (6,3) como carpinteiro; segundo João (1,45) como filho de José, de Nazaré. A palavra grega “tékton” (carpinteiro) também significaconstrutor. Seria José um empreiteiro bem-sucedido, que colocou o filho mais velho numa das melhores escolas de Alexandria ou de qualquer outra cidade egípcia? Os seus conterrâneos, que conheciam bem a família, seus irmãos e irmãs, admiravam-se do sucesso de Jesus nos ajuntamentos, nas sinagogas e no Templo. E perguntavam: – De Nazaré pode sair algo de bom(Jo, 1,46)? Ou então: Como entende ele de letras sem ter estudado(Jo, 7,15)? É credível que Jesus tenha passado a sua infância no Egito e que lá tenha frequentado uma escola rabínica. Mas também é credível a narrativa de Lucas que diz claramente que a família sempre viveu na Galileia. A vida pública de Jesus, como pregador ambulante, terá começado pelo ano 27 da nossa era, quando teria uns 32 anos e o seu parente João, o Batista, que pregava o arrependimento e batizava no rio Jordão, próximo de Betânia, seria pouco mais velho. Ao iniciar o ministério, Jesus tinha mais ou menos trinta anos e era, segundo se supunha, filho de José…, afirma Lucas (3,23).
Que terá acontecido durante os 20 anos que separam aquela cena, de Jesus discutindo no Templo com os doutores, da intervenção de João Batista que lançou Jesus no meio do público e das polémicas? Desapareceu a figura de José, pai de uma prole numerosa, segundo os evangelistas Mateus (13,55-56) e Marcos (6,3): os irmãos de Jesus chamavam-se Tiago, José, Judas e Simão, e tinha mais algumas irmãs. Serão todos filhos e filhas de José e de Maria? Tiago e de Judas, apresentam-se como irmãos do Senhor, nas suas epístolas. O primeiro líder da comunidade cristã de Jerusalém foi Tiago, o irmão do Senhor (Gl,1,19), a quem Jesus se mostrou depois da ressurreição (ICor,15,7); o historiador Flávio Josefo escreveu que o sumo sacerdote Ananias, um saduceu cruel, condenou Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo, à morte por apedrejamento, no ano 62 da nossa era (Antiguidades Judaicas, 20,9,1). O evangelho de São João também é claro:desceram a Cafarnaum, ele, sua mãe, seus irmãos e seus discípulos…(Jo,2,12; 7,3). Uma dezena de passagens do Novo Testamento menciona os irmãoseirmãsde Jesus. Não seria honesto descartar a hipótese de Jesus pertencer a uma família, de dimensão normal naquela época, que hoje chamaríamos numerosa.
As intervenções de João, o Batista, atingiam frontalmente Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande. Mais brando que seu pai e seu irmão Arquelau, o tetrarca da Galileia e da Pereia divorciou-se para casar com a mulher de outro dos seus irmãos, chamada Herodíades, mãe de Salomé. O evangelista Marcos diz que Antipas tinha medo, admirava e protegia o Batista (Mc 6, 17-20), que terminou os seus dias preso e decapitado no palácio do rei em Maqueronte, na Pereia, em dia da festa do aniversário do soberano, no ano 28 da nossa era. Os oficiais do rei acusavam o Batista de incitar o povo a uma rebelião, apoiando a guerra que o rei Aretas IV, de uma tribo árabe do Sinai, mantinha contra ele. Para se casar com Herodíades, Herodes Antipas tinha repudiado a primeira esposa, Fazélia, que era filha desse Aretas IV. O historiador Flávio Josefo relata a guerra entre o sogro e o genro e a execução do Batista. João foi vítima do seu ativismo em prol da moralidade: nas suas pregações ele denunciava a vida devassa da família real e sofreu as consequências do seu atrevimento. Os evangelistas Mateus (14, 1-12) e Marcos (6,17-28) dizem que foi Salomé, que era bailarina, quem pediu a cabeça do Batista, orientada pela mãe, que o detestava e queria matá-lo. Lucas só diz que Herodes o mandou decapitar (Lc,9, 7-9). João não menciona a morte do Batista; em dada altura diz apenas que ainda não fora encarcerado(Jo,3,24). A figura do Batista é das mais importantes no início da intervenção pública de Jesus. Não consta que tenha emigrado, as suas ideias eram fruto das correntes ideológicas que vigoravam no seu tempo por terras da Judeia e da Galileia. Eram numerosos os seus seguidores.
Que recordações terá Jesus guardado da sua juventude por terras do Egito? Nada é mencionado nos evangelhos, Jesus nunca revelou qualquer recordação do período da sua infância, nenhuma alusão a esse tempo da sua vida. A vida em Nazaré era pacata e simples, muito diferente da agitação e da exuberância do país dos faraós. A religião tinha grande impacto na vida quotidiana dos egípcios: havia grandes templos em honra dos deuses, também lá se adorava um Deus único, desde o tempo de José e de Moisés. Um sacerdote judeu, refugiado após a conquista babilônica, tinha mesmo edificado um Templo em Heliópolis, a nordeste da atual Cairo, que pretendia substituir o de Jerusalém, que fora destruído. Outro Templo surgiu próximo de Menfis. Grandes manifestações públicas, procissões e cerimónias vistosas juntavam regularmente multidões. Muitos judeus deixaram-se seduzir pela religiosidade egípcia e trocaram as sinagogas pelos templos das divindades pagãs, caindo na idolatria.
A tolerância permitia que todas as religiões convivessem sem atropelos no país dos faraós. A influência da filosofia e da religião da Grécia dominava a vida cultural que se alicerçava em múltiplas escolas de formação da juventude, particularmente numerosas nas grandes cidades. Graças a essas elites culturais, o Egito transformar-se-ia, a partir do primeiro século da era cristã, no primeiro grande país cristão do mundo e, até aos nossos dias, ainda abriga a maior comunidade cristã de todo o Oriente Médio. Foi graças à primeira tradução para grego dos livros da Bíblia hebraica, feita em Alexandria, que o Antigo Testamento ficou acessível ao resto do mundo civilizado e aos próprios judeus da diáspora que já não falavam aramaico e muito menos o hebraico. O alicerce desta cristandade encontra-se na comunidade dos emigrantes judeus que desde tempos ancestrais se instalaram no Egito. Talvez Mateus tenha levado a sério alguma narrativa oral, talvez a família de Jesus tenha mesmo andado uns anos pelas terras generosas do delta do Nilo, ou numa grande cidade como Alexandria, onde ele cresceu, brincando e aprendendo, durante a infância. Ou talvez não. A sua identidade, para os autores conhecidos e desconhecidos que redigiram os livros do Novo Testamento ao longo dos dois primeiros séculos do cristianismo, ficou como Jesus de Nazaré. O Nazareno.
Se Jesus andou pelo Egito, foi um emigrante como muitos dos nossos. Emigrante merece dia de festa e nome de rua.
António de Abreu Freire