Estragar o que está mal ou compor o que está bem?

“Cá se vai andando”, é a expressão que se ouve muito por aqui em Pardelhas, e traduz uma resignação de quase três décadas, desde que a construção da estrada intermunicipal desviou muita da vida que o centro da nossa vila sempre teve, como entreposto pendular entre a nossa costa e os concelhos vizinhos.

Depois, há sensivelmente vinte anos, no raiar do novo século, por alturas da comemoração dos 75 anos da nossa emancipação, a Murtosa deu o pontapé de saída para um período de maior desenvolvimento, a todos os níveis. 

Foi um tempo de crescimento urbano, o concelho ultrapassou os dez mil habitantes, de alguma dinâmica económica ali na avenida industrial do Feital, com velhos – novos inquilinos, e do alvor de importantes obras e infraestruturas públicas que se materializariam no final da década zero, como as Piscinas Municipais, o Parque Municipal da Saldida e a nova Escola Padre António. Tratou-se da requalificação da Ponte da Varela, da 327 e da 109-5 e no centro, o Saneamento Básico começava a abrir vala pouco tempo depois.

Em suma, entrou-se no século XXI, no novo milénio, com ares de uma “certa” modernidade e garra para o futuro, mas no entanto o vulto nobre da Praça de Pardelhas, confidencia-me na sua voz de pedra a tristeza de décadas de algum alheamento e de políticas urbanas, que só agora se parecem reverter.

As famílias envelheceram, os filhos “partiram”, a população sente-se hoje mais só e abandonada do que nunca, e algum do edificado permaneceu esquecido, até que agora algum foi abaixo, mas por uma boa causa.

Em primeiro lugar, como todos sabemos, o nosso desenvolvimento regional e a atração de pessoas passa pelo dinamismo das economias. Pelo que só com a mudança de paradigma na Gestão da Ria de Aveiro, com quem souber partir os Ovos de Colombo, será possível abrir novos capítulos da historia, como tantos outros o homem já traçou com os nossos cais e juncais.

A diáspora do tempo chama por citações poéticas, que estão eternizadas para a posteridade, e se há menção que muito tem dito, é a que, “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”. Somos contemporâneos, onde esta trilogia mencionada nos enquadra, mas sem trabalho e sem empresas não há futuro, também porque os horizontes têm de ser interiores, ânimos que se abrem dentro de nós, planos que nascem à beira ria, a estrada do pensamento dos poetas e trovadores, mas também de parlapatões, fala-baratos e farsantes, todos com ideias que são janelas grandes abertas para o “futuro” que não passa de um caleidoscópio.

Muito mais do que promessas e de capelinhas, as pessoas necessitam do presente, de dinheiro para pagar as contas, para alimentar os filhos, para viver com dignidade. É urgente atrair novos investimentos e estimular a economia local; é urgente receber investimentos públicos e assegurar novos empregos que permitam às pessoas de facto, ficar por cá, porque quando se acabarem os Quadros Comunitários de Apoios, vai sobrar muito edificado para manter, e com tão parco e desinteressado público, não vai ser muito fácil.

Quando esperamos por medidas que promovam o emprego e mais população na Murtosa, veremos o que nos dirá o Census 2021, a realidade é sempre muito mais dura e difícil, do que a narrativa e as massas de polir podem descrever, a sete meses de eleições autárquicas, como sempre, o que se vê só com os olhos é pouco, faltam as emoções do percurso, não se mata a fome do desejo, não se sacia a sede do encantamento, não se resolve a necessidade absoluta de chegar onde queremos, só lá para Agosto.

Não se pode escamotear que muita da nossa vida pública, é exímia em iludir a ausência de tecido empresarial ou de oportunidades de emprego, que se só tapam com toldes; de políticas económicas capazes de fixar jovens e as famílias, com festas que distraem os olhos e sobretudo os pensamentos debaixo das máscaras de todo o género.

Não se pode escamotear também, que nos últimos anos, respiraram-se muitos momentos, que não mais do que cativaram “turistas” na sua própria terra, fixaram sorrisos de passagem, mas não criaram raízes, riqueza, ou desenvolvimento sustentado, para que a Murtosa se afirme como uma verdadeira plataforma de valorização de recursos endógenos de uma região alargada como é a nossa, porque o horizonte dos olhos não chega, não é suficiente olhar para este lugar, onde a terra se confunde com o céu, pelo menos vista de cima.